Ebiblica - Excelência Bíblica
Bem vindo visitante!
Faça Login ou Cadastre-se.

11/12/2017 - Segunda-feira
Seu IP: 54.163.209.109

LIVROS POR CATEGORIA
1 - Área Bíblica I (40)
2 - Área Bíblica II (148)
3 - Área Sistemática (249)
4 - Área Prática (187)
5 - Crescimento Espiritual (382)
6 - Vida Cristã (404)
7 - Área Geral (46)
BLOGS

História da Literatura Judaica

 

História da Literatura Judaica

Por Isaías Raffalovitch

 

Introdução

Assim como a História de Israel é sem par em confronto com a História de todos os outros povos, assim também é sui generis a contribuição da sua atividade literária. O povo judaico é o único que possui uma literatura ininterrupta, há mais de três mil anos pelo menos.

Os povos antigos contribuíram uns mais, outros menos, à cultura humana durante certos períodos. Depois disso, ou cessaram de existir, ou perderam o seu gênio literário. Os povos relativamente modernos, tarde começaram a sua carreira literária na História Universal, e embora tenham o direito de se orgulhar de uma longa série de trabalhos, a sua contribuição é relativamente nova e moderna.

O povo judaico teve o privilégio de acompanhar a carreira de todos os povos, quer antigos quer modernos. O judaísmo colaborou com os povos da antiguidade, acolhendo tudo que de melhor eles puderam oferecer e quando estes se retiraram da arena da História Universal, uniu-se às novas nações no trabalho da formação do pensamento humano.

É quase impossível apontar, com segurança, a etapa inicial na evolução da literatura judaica. Há opiniões, baseadas em fontes seguras, que a mais antiga cultura semítica, base da doutrina hebraica, serviu de alicerce à civilização antiga, cujos vestígios foram descobertos nos tempos modernos.

E não se pode dizer que a contribuição da literatura judaica está por terminar. Pelo contrário: temos muitas provas de que a erudição judaica principia uma vida nova. Com a renovação da consciência judaica, começou e torna-se cada vez maior o renascimento da sua sabedoria. Como a ave mitológica, o Fênix, surgem o povo de Israel e a literatura judaica das cinzas antigas, encetando uma nova vida rejuvenescida. E não é improvável que graças ao novo centro de cultura na sua novo-antiga Pátria, o antigo Israel marche à frente, novas verdades venham a ser reveladas aos habitantes da terra, e mais uma vez o "conhecimento virá de Sion e a palavra de Deus de Jerusalém".

 

O que é literatura judaica

Numa apreciação geral, a literatura judaica inclui tudo que foi escrito por judeus, desde os tempos mais remotos até os mais modernos, sem distinção de mérito, idioma ou país de origem. E assim, essa literatura abrange a Bíblia, os Apócrifos, as letras judeo-helenas que se originaram no Egito e em outros países de idioma grego, a sabedoria rabínica que alcançou o mais alto grau de desenvolvimento na estrutura colossal chamada Talmud, a literatura do período denominado hispano-judaico, incluindo obras de filosofia, exegese e poesia, escritas em hebraico e árabe, os trabalhos literários da época do Renascimento, mudando constantemente e transformando-se de acordo com as circunstâncias, e finalmente a literatura moderna hebraica que, embora oriental na sua substância, é ocidental em seus métodos e no tratamento dos assuntos.

Os judeus, sendo um povo errante, entrando em estreito contato com todos os povos do mundo, assimilaram as ideias e todos os pensamentos dos melhores pensadores, e por isso a literatura judaica, embora essencialmente nacional, é, todavia internacional, porquanto ela reflete os pensamentos que dominam nos povos de todas as idades.

Entratanto, há nela um princípio unitário que se reflete em todas as suas produções, pois as obras de todos os escritores judeus constam de elementos originados na Bíblia, de maneira que há mais harmonia na literatura judaica do que nas outras literaturas do mundo.

Por isso, um resumo de conjunto da literatura judaica deveria começar com a Bíblia. Abster-me-ei, porém, de tocar na Bíblia, nos Apócrifos e nas obras judaicas da época Alexandrina, como, por exemplo, as de Filon, visto terem dela os letrados bastante conhecimento.

O menos conhecido, até ignorado, é que também na diáspora, nos guetos, o judeu muito colaborou no campo literário e que ele tem direito a um lugar de destaque entre aqueles que contribuíram à cultura universal por meio da literatura. Por isso começarei o meu resumo sobre a atividade dos judeus na literatura a partir da época em que Israel deixou de ser uma entidade política entre os povos do mundo, isto é, pelo ano 70 da era cristã.

Israel na diáspora

No ano 70 foi quebrada a existência político-nacional do povo judaico. A terra de Israel ficou deserta. Jerusalém em ruínas e o templo um monte de cinzas. A luz desaparecera da Cidade Santa. Roma tinha decidido alcançar a vitória completa. Os poucos judeus que restaram do terrível holocausto deviam ser privados de qualquer possibilidade de se reunirem novamente. O povo judeu devia ser exterminado. E na verdade, nada restava que pudesse ser salvo da desintegração total. A dissolução e o esquecimento estavam com as bocas bem abertas para engolir, para sempre e irrevogavelmente, os restantes filhos de Israel.

De acordo com todas as leis da natureza, presentemente não mais devia existir um judeu sequer. Nenhuma força da terra teria conseguido salvar qualquer outro povo do extermínio, se tivesse tido a sorte do povo judeu: sem território, sem um centro nacional, sem um ideal a alimentar, sem um fim a conseguir, o que ficou para impedir aos poucos sobreviventes de se misturarem com os dominadores, os romanos, como fizeram todos os outros povos daquela época.

Temos, porém, uma máxima profética, cuja verdade está demonstrada pela experiência de muitas gerações: "Porque a casa de Israel não é como a de outros povos". Todas as leis, físicas e psicológicas, estabelecidas no estudo da História Universal nem sempre resistem à crítica, quando aplicadas à História de Israel. Até a própria existência dos judeus, como povo, é um enigma, algo de fenomenal, ou de sobrenatural, ou como dizem alguns: quase regular na sua irregularidade. Quando o povo judaico chega a um ponto em que o prosseguimento não parece mais possível, algo acontece, algo de inesperado sobrevém que transtorna todos os cálculos, e todas as teorias caem por terra.

Assim foi durante o período fatal acima mencionado. O organismo político judeu jazia em prostração; o sangue vital escorria, porém, de suas feridas. A alma, no entanto, o espírito judeu, salvou-se antes que o corpo tivesse expirado. A vida e a prosperidade ulterior salvaram-se e conservaram-se antes que o golpe fatal o tivesse prostrado para sempre. O que se deu, todos sabem. Em Jerusalém, na cidade sitiada, havia um pequeno grupo de homens de sangue frio e presença de espírito que compreenderam claramente a situação amarga do seu povo infeliz.

Viram que não havia nenhuma esperança de domar as poderosas legiões romanas; a queda da Judéia foi inevitável. Mas não pensaram no presente; a sua dor aumentou muito, quando pensaram no futuro. Que seria de Israel, disperso, sem um centro que reunisse e congregasse os membros espalhados e destroçados do povo, sem um centro para onde se dirigissem todos os olhares, um centro que exercesse a sua influência unificadora sobre os grupos de judeus disseminados e afastados uns dos outros.

 

O centro cultural de Iabné

Esse grupo de patriotas resolveu esforçar-se concretamente para salvar a alma judaica, uma vez que não podia salvar-lhe o corpo. Estando o Templo na iminência de ser destruído, outro centro se tornava indispensável, um centro indestrutível, de maneira que, ainda antes da queda de Jerusalém já existisse para servir, como o Templo, de fonte de inspiração e de entusiasmo de onde surgisse a corrente da cultura e da tradição e que abrangesse e reunisse todo o povo de Israel, tornando-o uno novamente.

Esse grupo foi chefiado por um dos rabis mais proeminentes que floresceram durante a última década da existência do segundo Templo, Rabi Iohanan ben Zacai. Ele reconheceu que somente a Torá, o estudo da Bíblia, podia consolidar as forças dispersas do judaísmo; que para assegurar a continuidade da existência nacional dos judeus cumpria formar um novo centro, independente do Santuário, não ligado ao rito dos sacrifícios; que era necessário encontrar um refúgio, um abrigo para proteger o espírito judaico contido na Torá, expressão de seu gênio durante numerosas gerações. Salvos os estudos judaicos, os ideais do judaísmo, assegurada a sua influência, o país de Jerusalém e o Templo poderiam ser destruídos, mas o judaísmo continuará vivo eternamente.

Através da tradição popular sabe-se como o Rabi Iohanan conseguiu evadir-se da cidade sitiada, e apresentando-se perante Vespasiano, o comandante supremo dos sitiantes, fez-lhe um pedido modesto. Pediu permissão para abrir uma escola em Iâmnia ou Iabné, lugar sem importância, situado a pouca distância do Mar Mediterrâneo, onde com os seus discípulos pudesse tranquilamente estudar a Lei. Pedido inocente ao qual o general romano prontamente acedeu. O romano não percebeu que com esta concessão dava ao judaísmo, e, por conseguinte aos judeus, a vida eterna; que com este favor insignificante contribuía para conservar o povo que queria destruir; que com essa ninharia o altivo general, o conquistador, era virtualmente conquistado pelo fraco Rabi judeu; que na hora da sua grande vitória, Roma era derrotada pela Judéia.

Em Iabné, o Sanedrim, ou Grande Conselho, foi reconstituido, um grande Colégio foi aberto, e Iabné tornou-se o primeiro centro dos estudos judaicos. Aí os Rabis receberam a terrível, embora esperada nova, da queda de Jerusalém; estraçalharam suas roupas em sinal de desespero, choraram e se lamentaram em intenção aos mortos, mas não se desiludiram. Jerusalém acabou, mas Iabné vai ocupar o seu lugar. O Templo não existe mais, mas o Colégio tornar-se-á um santuário, cujos sacerdotes serão os estudiosos. Rabi Iohanan ben Zacai enunciou o princípio no qual a prece, a caridade, a beneficência e o amor ao próximo, devem substituir os sacrifícios, e o princípio foi aceito por todo o povo.

Em Iabné foi lançado o fundamento para uma intensiva obra cultural que ainda não está terminada. Tendo-se divorciado da política do mundo, o judeu desde então imergiu completamente na literatura. Como resultado direto da ação em Iabné, a literatura se tornou a ocupação principal do judeu.

 

A Mishiná

Tomando a Bíblia como base, os Rabis empreenderam a tarefa gigantesca de harmonizar e de adaptar todos os preceitos bíblicos às circunstâncias da vida, que sempre variam e mudam. Já na geração anterior, o grande Hilel estabeleceu sete regras que deviam regular a interpretação da Sagrada Escritura. Estas regras desenvolveram-se e ampliaram-se em Iabné, e assim desenvolveu-se a Mishná. Esta obra, que levou cerca de 200 anos para a sua formação, é até um certo ponto o texto da Tradição, o Tratado da Lei Tradicional dos Judeus. A Mishná é a expressão literária do ponto de vista Bíblico de acordo com a tradição judaica popular antiga, mas sempre em evolução. Nota-se o processo evolutivo até na língua. A língua da Mishná é o neo-hebraico, descendente natural da língua clássica da Bíblia. A matéria tratada na Mishná abrange a lei e a ética, "as coisas do corpo, da alma e do pensamento", em uma palavra, tudo diz respeito ao comportamento do homem quer quanto às suas relações com o Criador, quer quanto às com o seu próximo. Os autores da Mishná, os Tanaim, não eram Rabis profissionais; como diziam em termos incisivos: "A Lei era a vida do Rabi, mas não o seu meio para viver". Eram em geral gente do povo, artífices, artistas, simples operários ou lavradores que trabalhavam com suas próprias mãos para ganhar o pão, e dedicavam as horas de folga ao estudo da Torá.

Foi nessa época que foram escritas obras completas sobre a História dos judeus, embora não em hebraico. Justus de Tibérias escreveu, em idioma grego, a História dos reis judaicos, e também uma narração detalhada da grande guerra dos judeus com Roma. Infelizmente, os livros originais deste autor perderam-se totalmente, e só os conhecemos através de citações.

Entretanto, a sorte conservou-nos as obras de Flávio Josefo. Também ele escreveu em grego, embora se saiba ter escrito pelo menos a História da Guerra Judeo-Romana, também em aramaico, vernáculo daquela época. A composição do Novo Testamento também teve lugar naquele período, e alguns dos livros de que ele consiste, foram escritos por judeus. O Quarto Livro dos Oráculos Sibilinos, talvez o mais antigo da Apologética na literatura judaica, foi escrito mais ou menos no ano 80 da era cristã. Um resumo dos acontecimentos históricos, sob o nome de "Rolo do Jejum", apareceu na mesma época. É uma obra muito curiosa: ela consigna os dias em que não há jejum. Segundo a ordem do calendário hebraico marca as datas dos aniversários importantes que caem em dias diferentes, e dá uma cuidadosa ordem cronológica às datas das vitórias nacionais e de outros acontecimentos históricos.

Rabi Iohanan ben Zacai morreu nos fins do primeiro século, e o segundo principiou com um intenso movimento escolástico. Depois da morte do Mestre, muitos dos seus discípulos abriram escolas próprias em diferentes partes da Palestina e, graças à propaganda e aos esforços de Rabi Aquiba, o grande patriota que, santificando o Nome do Eterno, tornou-se mártir na luta final contra Roma (durante a última revolução contra os romanos, empreendida pelo herói Bar-Cochba no ano 135 da era cristã), fundaram-se casas de estudo na Babilônia, na Ásia Menor e em Roma. Regras e métodos definitivos foram estabelecidos para a exposição da Bíblia e a explicação dos seus mandamentos, de acordo e em harmonia com as novas circunstâncias da vida. Esses métodos foram aceitos pelos sábios, muitos dos quais se especializaram em assuntos particulares de estudo. Destes estudos resultou a base fundamental dos mais antigos comentários, existentes atualmente sobre as partes legais do Pentateuco.

 

O talmud

A Mishná, completada e editada por Rabi Judá, contemporâneo e amigo íntimo do filósofo e imperador romano Marco Aurélio, tornou-se a base do novo edifício, cuja construção durou 300 anos. A estrutura levantada sobre os alicerces da Mishná é o Talmud, chamado também Guemará. O termo Talmud é usado também para indicar o conjunto da Mishná e da Guemará. A Mishná é o código ou o sistema que tratou de introduzir a ordem na vida nacional judaica, edificado de acordo com as leis derivadas direta ou indiretamente da Bíblia, como também a massa das tradições populares que se avolumaram no decorrer dos séculos ao lado da Lei escrita. O Talmud em seu conjunto é um comentário, ou uma exposição da Mishná. As leis e regras estabelecidas na Mishná não foram aceitas pelos sábios como dogmas, que queriam saber o porquê e o para quê, concordância lógica das leis com as regras estabelecidas pelos sábios das gerações anteriores. As discussões sobre todas as questões, os argumentos e as decisões finais foram todos incorporados ao Talmud.

Mas o Talmud é mais do que isto. O Dr. Israel Abrahms diz com razão:

"O Talmud não é um livro, é uma literatura. Uma enciclopédia cuja compilação levou 300 anos. Incorpora o produto do pensamento do povo em todas as vicissitudes da vida durante cinco séculos. Sendo o código legal dos judeus, é ao mesmo tempo também a fonte da sua liturgia, o seu sistema de ética, o repositório das suas poesias e um depósito de História, ciência, medicina e folclore”.

Já o Talmud revelou que os judeus não ficaram, contrariamente à crença popular, isolados e não influenciados pela vida exterior da sua esfera própria. O Talmud apresenta vestígios inconfundíveis da cultura das nações com as quais os judeus tinham contato. Sabe-se que há duas obras talmúdicas distintas: o Talmud da Palestina, produto dos seus colégios, completado mais ou menos do ano 370, e o Talmud da Babilônia, isto é, as obras dos estudiosos da Babilônia, o qual foi completado um século mais tarde.

 

O Midrash

Ao lado do Talmud desenvolveu-se outra literatura, que pode ser chamada de expressão poética ou espiritual do pensamento judaico - o Midrash. Este último é uma compilação de exposições homiléticas ou espirituais da Bíblia, penetrando sob a superfície do sentido singelo do texto bíblico. Enquanto o Talmud se dedica principalmente à explicação da letra, o Midrash revela o espírito da palavra e da Lei. Os primeiros vestígios da literatura midráshica podem ser encontrados numa época anterior à conclusão da Bíblia, mas a sua atividade estendeu-se até o décimo ou undécimo século.

Até os nossos dias, o Midrash serviu de tesouro inesgotável aos pregadores e moralistas judeus, ofereceu-lhes uma vasta série de engenhosos e sutis comentários de passagens bíblicas, embelezados com provérbios, parábolas e lendas. O ideal que serve de esteio ao conjunto desta literatura é o aperfeiçoamento da moralidade, o enaltecimento do princípio ético da vida, o apelo para a imaginação e a apresentação do lado espiritual do judaísmo numa forma atraente. Um grande número de obras midráshicas existe ainda hoje e, a despeito da sua antiguidade, goza até agora de grande popularidade, contando inúmeras edições.

 

O centro cultural na Babilônia

No tempo em que o Talmud foi completado, a Palestina há muito deixara de ser o centro espiritual dos judeus. Mas um novo centro nasceu na Babilônia e durante gerações guardou a supremacia nos estudos judaicos. Grandes e influentes colégios floresceram em Sura e Pumbedita, considerados como guias pelos judeus de todas as terras. Os chefes daquelas Academias pós-talmúdicas da Babilônia são conhecidos com o nome de Gaonim, e seu período é conhecido na História como o "Período Gaônico". Todas as questões vitais das comunidades judaicas eram submetidas aos Gaonim. Cada vez, novas questões surgiam devido às novas circunstâncias da vida, e a eles cumpria a difícil tarefa de aplicar preceitos antigos às circunstâncias novas.

Ocuparam-se, também, em popularizar o ensino entre o povo.Um dos mais afamados foi o Gaon Sherira que, além de muitos responsos de jurisprudência, escreveu a História do desenvolvimento do Talmud. Outro Gaon célebre foi Saadia, que prestou um serviço eterno à literatura judaica, criando uma base filosófica e científica do conceito talmúdico da religião. A sua tradução da Bíblia em árabe marcou época. De máximo interesse foi o seu trabalho: Fé e Dogma. O primeiro a tratar os princípios e as ideias do Judaísmo Talmúdico do ponto de vista filosófico.

 

A idade de ouro na Espanha

Depois da morte de Saadia as escolas da Babilônia começaram a declinar e, mais uma vez, a base espiritual judaica estava ameaçada de se extinguir. Mas, anteriormente à extinção total, foi preparado um novo lar para os estudos judaicos e implantado na Espanha Mourisca.

Já no décimo século encontramos um núcleo de grande atividade na Espanha, tratando-se de assuntos especificamente judaicos, inclusive ciência pura, arte e poesia. Naquele período, cresceram os mais belos frutos da cultura e da literatura judaica. O gênio judeu desenvolveu-se e cresceu sob os raios do cálido sol da cultura árabe. A língua e a poesia árabes não lhes eram estranhas, pois aos judeus se deve grande parte da sua criação. Muitos séculos antes da origem do Islam, existia na Arábia enorme população judaica, aí domiciliada desde tempos imemoráveis, até constituindo uma província autônoma, que contribuiu grandemente para enriquecer a língua e a poesia árabes. Foi fenômeno natural, portanto, terem os judeus se dirigido à Espanha, que se achava sob o domínio árabe. Aí alcançaram o auge, não no campo material, mas no da cultura. Durante gerações encontramos entre eles um grande número de sábios judeus que conquistaram fama mundial como estadistas gramáticos, poetas, filósofos e cientistas, homens esses a quem a civilização ocidental deve gratidão eterna.

O afamado pensador inglês W. E. H. Lecky, na sua História do Racionalismo, faz a seguinte observação a respeito dos judeus da Idade Média:

"Enquanto a população ambiente se revolvia nas trevas da ignorância embrutecedora, enquanto milagres fraudulentos e relíquias trapaceiras eram os temas discutidos em quase toda a Europa, enquanto o intelecto do cristianismo, subjugado por inúmeras superstições, imergiu num torpor mortal, de onde foram banidos o amor às investigações e a procura da verdade, os judeus sempre prosseguiam no caminho do saber, acumulando conhecimentos e estudos, e estimulando o progresso com a mesma constância resoluta que manifestaram na sua fé. Foram eles os médicos mais habilidosos, os financistas mais eficientes e filósofos dos mais profundos e unicamente no cultivo das ciências naturais vinham em segundo lugar, depois dos mouros. Foram eles os intérpretes e mediadores entre a Europa Ocidental e a Ciência Oriental".

 

Com Hasdai ibn Shaprut, Ministro das Relações Exteriores do Califa Abd Er Rahman, de Córdova, no século X, alvoreceu uma nova era literária. Foi então que começou a surgir a tendência para o que modernamente se chama de cultura leiga, tendência essa que se ia desenvolvendo aos poucos e nunca cessou de evoluir. Foi o primeiro a publicar um trabalho científico sobre botânica. Estimulando o estudo em geral e a poesia em particular, foi ele, como então se dizia, quem "abriu os selados lábios da Musa Hebraica". Sob a sua influência, Córdova tornou-se o centro da atividade judaica nos campos da gramática e da poesia.

Meio século mais tarde apareceu outro protetor dos estudos na pessoa de Samuel Ibn Nagdela, a quem os judeus cognominaram "Príncipe". Era, a um só tempo, Vizir do rei de Granada, Rabino da Comunidade, além de poeta distinto. A sua "Introdução ao Talmud" é ainda hoje considerada um trabalho exemplar. Afora uma grande coleção de poemas sobre vários assuntos, deixou dois trabalhos que contêm hinos e máximas calcados sobre os Salmos e o Livro dos Provérbios.

Quando Samuel, o "Príncipe", faleceu - em 1005 - a Idade de Ouro da literatura espanhola já se vislumbrava. Os maiores poetas hebraicos daquele período Ibn Gabirol, os Ibn Ezras e o inimitável Iudá Halevi, já se entreviam no horizonte.

Eram não somente poetas como também filósofos, cuja influência sobre o pensamento medieval foi das mais profundas. Ibn Gabirol foi o primeiro a introduzir o Neo-Platonismo na Europa. A sua obra A Fonte da Vida tornou-se uma das fontes mais importantes do escolasticismo cristão, enquanto o seu grande poema A Coroa Real se acha incorporado na liturgia judaica.

O mais sublime poeta hebreu desde quando os judeus "penduraram as suas harpas nos salgueiros dos rios da Babilônia" foi Halevi. Imortalizou-se ele com os seus Cantos de Sion, nos quais atingiu os pontos mais culminantes do êxtase divino. Mas cantou também assuntos leigos, o amor, o vinho e outros bens terrenos. Também é afamado pela obra filosófica O Cuzari.

Um dos maiores judeus da Idade Média foi Abraam Ibn Ezra, que até hoje ocupa um lugar de honra entre os melhores comentadores da Bíblia. Talvez seja o pai, por assim dizer, da moderna crítica da Bíblia. Foi o primeiro a perceber e a afirmar que o Livro de Isaias contém a obra de dois profetas. Já demonstrei, em outro trabalho, que grande foi a sua influência sobre Spinoza.

Outro célebre comentador, que veio depois, foi Davi Quimhi, de Narbona, conhecido como Radac. Os seus comentários da Bíblia granjearam autoridade entre os sábios cristãos de todos os tempos, chegando a exercer influência direta sobre a Reforma. O seguinte dito tornou-se popular entre os estudiosos: Sem Quimhi não há Torá... Além disso, escreveu sobre assuntos de gramática e lexicografia. Ao mesmo tempo apareceu a primeira obra sistemática sobre ética, sob o nome de Deveres do Coração, baseada no Talmud e nas noções filosóficas correntes naqueles dias e escrita em árabe pelo juiz Bahia ibn Pecuda, obra essa que mesmo em nosso século ainda não perdeu o seu valor ético. Este trabalho foi traduzido para o hebraico e outras línguas. É o devocionário mais inspirado na literatura judaica, sendo o mais favorito dos que procuram edificação espiritual.

Estes poucos, de um grande número de poetas e filósofos que influenciaram não somente a cultura dos seus contemporâneos, não se contentaram em escrever unicamente em hebraico. Cantaram também em árabe e em espanhol, e algumas das suas obras obtiveram tão alta cotação que comentários foram escritos por não-judeus acerca dos seus trabalhos, como, por exemplo, Os Divães, de Moisés ibn Ezra e Iudá Halevi; as Parábolas, de Ibn Gabirol, foram traduzidas por Iudá ibn Tabon do original árabe.

Todos estes poetas, filósofos e gramáticos foram, porém, quase inteiramente eclipsados pelo maior luminar do judaísmo, cujo aparecimento no século XII marcou o ponto culminante no judaísmo medieval: Moisés ben Maimon - Rambam - ou Maimônides. Nasceu em Córdova, em 1135 e faleceu no Egito (em Fostat), em 1204. Foi o maior sábio que o povo judeu produziu. Como os antigos Rabis, não viveu da sua pena. Era um médico de grande fama e estava a serviço do Sultão Saladin. Recusou o lugar de médico de Ricardo, Coração de Leão, da Inglaterra. É de observar que Maimônides não foi o primeiro, mas sim um de uma série de médicos judeus que, praticamente falando, deram ao mundo a Medicina. Por exemplo: Sahal e seu filho Abu Alhassan, no século IX, que expôs ao mundo o Almagesta, de Ptolomeu; Isaac ben Salomão Israel escreveu, em árabe, também no nono século, obras sobre dietética e urinoscopia que foram traduzidas ou resumidas em outras línguas.

Rambam também escreveu muito sobre assuntos médicos. Publicou um resumo dos dezesseis livros de Galeno. Segundo o Mercurial, as obras de Rambam estão na mesma altura das de Hipócrates. Seu primeiro grande trabalho no campo judaico foi o Comentário da Mishná, escrito em árabe e mais tarde traduzido para o hebraico. Sua fama, entretanto, é devida ao monumental trabalho A Mão Forte, que é uma obra prima. Pela primeira vez a ordem e a lógica foram introduzidas na literatura religiosa dos judeus. Toda a massa dos Talmuds, Tossafta e dos escritos dos Gaonim, foi reduzida a dezesseis livros em ordem sistemática e metódica, de maneira a formar um verdadeiro código. Outro trabalho de enorme importância, que o tornou célebre no mundo escolástico, foi o Guia dos Perplexos, que de um lado se baseava no sistema aristocrático e de outro na firme fé na Sagrada Escritura e na Tradição. Como muitos outros haviam feito anteriormente, Maimônides procurou reconciliar a Fé com a Razão, provando a compatibilidade das ideias filosóficas com os princípios religiosos. Foi o primeiro a preconizar explicações racionais para os preceitos do Pentateuco. Este livro foi pouco depois traduzido para vários idiomas, tendo muitos comentários e provocando alarido no meio teológico e metafísico. Estudado não somente por judeus, mas também por maometanos e cristãos, principalmente pelos escolásticos como Tomás de Aquino e outros.

A veneração do povo por Maimônides foi tão grande, que após a sua morte nasceu o seguinte ditado: De Moisés até Moisés não existiu ninguém igual a Moisés.Como tendo integrado o mesmo período, convém lembrar o grande astrônomo Abraão bar Hanassi, que no século XI escreveu obras importantes sobre astronomia, utilizadas pelos seus contemporâneos para o estudo dessa ciência.

 

Na França e na Alemanha

Os judeus na França e na Alemanha tiveram também o seu quinhão no desenvolvimento da literatura. O primeiro grande Rabi no Ocidente, ainda lembrado em nossos dias, foi Natan ben Isaac, que da Babilônia veio para a França, onde estabeleceu uma grande escola.

Entretanto, o verdadeiro fundador dos estudos judaicos na França e na Alemanha foi Guershom, cognominado A Luz do Cativeiro. A escola por ele fundada em Magúncia tornou-se um importante centro de estudos talmúdicos para muitas gerações. Foi ele quem promulgou o decreto proibindo a poligamia entre os judeus, e esse decreto tornou-se desde aquele tempo uma lei inviolável entre os judeus da Europa. Mas a fama de Guershom foi obumbrada por Rashi de Troyes, de Champagne, que nasceu em 1040 e faleceu em 1105, e que ainda atualmente é o mais popular dos autores pós-bíblicos entre os judeus estudiosos. Escreveu um comentário que abrange toda a Bíblia e todo o Talmud, o qual não somente é uma obra prima, como também é rigorosamente indispensável a todo estudante. A tradução da Bíblia feita por Lutero é amplamente baseada no comentário de Rashi. Graças à fama de Rashi, a França tomou a dianteira nos estudos talmúdicos, e esta tarefa ficou a cargo dos genros e dos netos de Rashi, durante muitas gerações.

Aqui deve ser mencionada a obra da difusão das ciências, por meio de traduções, que na Idade Média era trabalho, principalmente - se não exclusivamente - dos judeus. Steinschneider preencheu 1100 páginas com a enumeração das traduções feitas pelos judeus na Idade Média. É através dos judeus que o Ocidente travou conhecimento com Ptolomeu, Euclides, Arquimedes e muitos outros. Roger Bacon, no século XIII, faz a observação seguinte: "Michael Scott reivindicava o mérito de numerosas traduções. Mas é certo que os judeus trabalharam nisso mais do que ele. E assim quanto aos outros".

Quanto ao quinhão dos judeus na literatura moderna universal, é desnecessário falar. Não há ramo de cultura moderna, em qualquer parte do mundo, onde os judeus não tenham a sua parte, e muitas vezes não estejam à frente do movimento literário. Como povo, os judeus contribuiram à cultura mundial em grande parte. A produção literária dos judeus não terminou com a Bíblia e com o Talmud. Tomando a Bíblia como base, eles continuaram a construir, camada após camada, erguendo um edifício de que se podem orgulhar com muita razão.

Em marcha para o exílio, o primeiro pensamento dos judeus foi o de conservar a sua cultura, com a fundação de uma grande Academia, que lhes forneceu inesgotável vitalidade para resistir a todas as forças desintegrantes e mantê-los salvos até o dia de hoje. E agora(*), quando surge uma luz no Oriente, quando se avista a perspectiva da volta do povo de Israel a uma existência nacional independente em sua terra própria, o primeiro ato da regeneração da terra de Israel e do seu povo foi a fundação de uma Universidade Hebraica, de um lar para a cultura judaica, onde o espírito literário inato dos judeus terá a possibilidade de se reafirmar, de reassumir a sua função antiga, de ser o intermediário entre o Oriente e o Ocidente, trabalhando e cooperando para que seja conseguido o ideal do profeta: A terra estará repleta do conhecimento como as águas cobrem o mar.

(*) Note-se que este Estudo foi elaborado pelo saudoso Grão-Rabino dos Israelitas do Brasil, ISAIAS RAFFALOVITCH, no ano de 1934, portanto muito antes da criação do novo Estado de Israel.

Referencia

Isaias Rafalovitch,  “Coleção Judaismo”, , consultado em 06-03-2012.  


ÁREA RESTRITA
Já é Cadastrado?
20 LIVROS MAIS INDICADOS (Ver Mais)
www.ebiblica.com.br | Todos os Direitos Reservados 2011